Eu gostaria de saber quando foi, no Brasil, o exato momento em que a política se tornou tão importante na vida das pessoas (deveria mesmo ser, sempre foi, mas as pessoas em sua maioria apenas votavam e esperavam – também sou uma dessas pessoas) e quando exatamente tantos se tornaram especialistas no assunto e puderam, sem muito esforço, chegar a tantas conclusões incontestáveis, gritar e bater no peito, se possível no outro que dele discorda.
Li recentemente que surgiu um terrível método capaz de tornar autoconfiante e com ares de inteligência e arrogância qualquer pessoa que se dispusesse a acreditar nele e reproduzi-lo. Foi um método que, somado à aparente arena livre das redes sociais, que deu voz a muitos, e o empoderamento da opinião como verdade, transformou o debate político.
Seria admirável essa democratização do debate público aberto à participação de todos caso não fosse contaminado como foi pela mentira e manipulação das opiniões, pelo desvio dos assuntos relevantes para temas de cunho individual e particular. O debate tornou-se quase que totalmente irracional.
Foram criados discursos uniformes, superficialmente válidos, mas com conteúdo não verdadeiro, com premissas falsas e conclusões absurdas vendidas como repletas de conhecimento profundo e verdades infalíveis.
Essa multidão de certezas e fatos não comprovados tornou as pessoas papagaios repetidores de discursos vindos de um submundo cujas intenções depois se mostraram claramente voltadas a destruir a sociedade, dividi-la, adoece-la mentalmente, com o intuito de tomar os poderes do Estado para si e seus recursos, montando um circo em que todos estão enredados, sem pão, enquanto os manipuladores fazem sua mágica se aproveitando das riquezas disponíveis e dos benefícios do poder alcançado.
E hoje estamos mergulhados em um poço tão profundo que parece não haver possibilidades de sair. Há uma cartilha de explicações consolidadas para justificar qualquer ideia absurda e essa facilidade de ter o trabalho pronto e não precisar pensar é muito atraente. Há também um orgulho exagerado em vencer o debate por meio do método da opinião absoluta e das histórias fechadas, dos culpados recorrentes etc.
Eu, ultimamente, sempre perco, perco pelo cansaço, pelo desânimo, pela frustração de não conseguir dialogar e trazer as pessoas para fora do poço, pode ser que eu também esteja nele. Talvez seja pretensão minha achar que estou fora, arrogância. Mas o que defendo, penso, se sustenta lógica e racionalmente com base na realidade do mundo. Não quero dizer que conheço a verdade final e absoluta, mas provar que não há verdade final e absoluta, que a realidade é construída a partir de nossas ações e práticas.
Não busco as respostas prontas, ouço-as, mas duvido delas, comparo com a realidade e com as outras respostas possíveis e chego a conclusões parciais. As pessoas retroagem para antes de Descartes e duvidam do que se prova e acreditam no que é apenas teoria, querem fazer o mundo caber numa ideia incontestável e absoluta que outro, desconhecido, escondido nas sombras das redes e robôs vende como a única, absoluta e eterna verdade.
Há uma questão forte de ego também, ninguém quer estar errado, sentir-se menos inteligente que o outro, é quase um crime reconhecer que se foi enganado, é preferível morrer sustentando a mentira na qual se acreditou.
Ainda se precisa ser desenvolvido um método de abordagem que não fira essa área íntima do outro, que não quebre seu orgulho, talvez hoje isso seja a maior dificuldade para pegarmos esses limões da democratização do debate e fazermos uma bela limonada em que o debate se qualifique e a democracia se aperfeiçoe.
O grande problema é o nosso déficit de educação política, que depende de História, Filosofia, Sociologia, Economia Política e, principalmente, visão da realidade.
A lacuna de conhecimento que havia, ainda há em grande medida, foi preenchida pelo esgoto do conhecimento, por charlatões e aproveitadores, por agressivos defensores de ideias e ideais retrógrados, perigosos. O caminho para reversão desse desvirtuamento das mentes, dessa intoxicação pelo ódio, pela raiva, pela ignorância e estupidez é muito longo, longo demais e não é apenas o confronto que vai mudar isso.
Familiares não ouvem, amigos não ouvem, quando podem repetir e repetir coisas aparentemente corretas num discurso raso e que não avança para além da capa dos livros que podem representar. O problema é que os problemas são complexos e não existem atalhos para longas distâncias. Não há como simplificar o que não é simples, porém há quem faça isso e traga o erro como acerto, a mentira como verdade, a ignorância como esclarecimento e iluminação.
Seria necessário escalar o poço e encontrar a luz do dia, sair da caverna, mas muitos têm preferido cavar mais fundo e se meter cada vez mais na escuridão do buraco, tapando qualquer raio de sol que insista em se infiltrar.
O que faremos? Seremos todos puxados para o fundo? Nos afogaremos nesse oceano profundo? Não há tantas pessoas ruins assim, quero acreditar, a maior parte desse ódio é medo, medo que precisa ser superado.
Peguem suas lanternas, acendam os faróis, vamos trazer de volta desse pesadelo as pessoas que se debatem desesperadas, talvez sem se aperceber disso. O ódio alimenta e gera cada vez mais fome, apenas o amor sacia, mas é como qualquer alimento saudável cujo sabor precisamos aprender a apreciar.
Quero ter esperanças, que minhas esperanças se unam a de outros e movam as montanhas com a fé na possibilidade de termos um mundo melhor, até melhor do que antes de toda essa insanidade que se instaurou entre nós. Insanidade essa fruto de muitos problemas não curados e que vieram à tona, fantasmas antigos que voltaram a nos atormentar com violência.
Penso que já fomos melhores do que hoje e que podemos ser ainda melhores que outrora, que esse perder-se possa se fazer caminho, uma oportunidade de mudança real e profunda, de evolução enquanto seres, enquanto povo, enquanto país, por mais que o que nos é nocivo resista e insista, precisamos lutar e vencer, do contrário caminhamos para um triste e doloroso fim de todas as coisas boas que já pudemos construir, principalmente os bons sentimentos que já fomos capazes de nutrir um pelo outro.







