VONTADE DE ESTUPIDEZ

Esses dias, esbarrei na releitura desse trecho da obra Memórias do Subsolo, de Dostoiévski (Século XIX – 19). Soou muito atual ao contexto Brasileiro de hoje, aliás, toda a primeira parte e a defesa da “vontade livre” humana registra a insensatez humana de, por tédio e para se dizer senhor de si, abraçar o obscurantismo, o que lhe é prejudicial:
“(…) Pois o ser humano é burro, de uma burrice fenomenal. Ou melhor, ele não é nem um pouco burro, mas em compensação é ingrato. Não existe ser mais ingrato que ele. Eu, por exemplo, não me admiraria nada se, de repente, sem nenhum motivo, em meio ao futuro bom senso geral, surgisse um cavalheiro com um rosto nada nobre ou, melhor dizendo, com uma fisionomia retrógrada e zombeteira e, de mãos na cintura, dissesse a todos nós: e então, senhores, que tal dar um pontapé em todo esse bom senso e mandar esses logaritmos para o diabo para que possamos novamente viver segundo a nossa vontade idiota? E não acabaria nisso, pois o mais lamentável é que ele certamente encontraria seguidores: assim é o ser humano. E tudo isso por um motivo insignificante que não valeria a pena mencionar: precisamente pelo fato de que o homem, invariavelmente e em todo lugar, quem quer que ele seja, sempre gostou de fazer o que quis, e não como mandam a razão e o interesse próprio; ele, inclusive, pode querer algo contra seus próprios interesses, e às vezes até deve indubitavelmente querê-lo (isto já é idéia minha). Sua vontade livre, um capricho seu, mesmo que seja o capricho mais estranho, uma fantasia sua, exacerbada às vezes até a loucura – eis a vantagem que é omitida, a vantagem mais vantajosa, que não se submete a nenhuma classificação e que manda para o diabo constantemente todos os sistemas e teoria. (…).”
Esse grito tem, infelizmente, ecoado: “(…) E ENTÃO, SENHORES, QUE TAL DAR UM PONTAPÉ EM TODO ESSE BOM SENSO E MANDAR ESSES LOGARITMOS PARA O DIABO PARA QUE POSSAMOS NOVAMENTE VIVER SEGUNDO A NOSSA VONTADE IDIOTA? E NÃO ACABARIA NISSO, POIS O MAIS LAMENTÁVEL É QUE ELE CERTAMENTE ENCONTRARIA SEGUIDORES: ASSIM É O SER HUMANO.”
“(…) O que o homem precisa é somente de uma vontade independente, custe ela o que custar e não importa aonde possa conduzir. Bom, essa vontade, o diabo conhece bem…”
E Kant se encantando com a possibilidade de uma razão pura capaz do “bem”. Eis que o “bem” quisto é em essência um “mal” no sentido de autodestrutivo. O humano atua contra si, contra sua própria existência para sustentar o direito da ignorância.
Talvez Nietzsche justifique esse impulso à autodestruição via realização da potência de exercício radical da vontade inexplicável de ser idiota, porque isso apraz.
Um pouco de razão ou a pura estupidez? Seria estúpido se autodestruir? Racional a preservação?

Este texto é resultado de um trabalho voluntário, e é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Portal Carta do Mar e seus administradores..

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