Respeito a religiosidade alheia, seja ela qual for. Crescido no Catolicismo, já visitei a convite de amigos algumas igrejas evangélicas. Não entendo de outras, porque nunca tive contato, mas tenho a convicção de que há pessoas boas e ruins em qualquer denominação.
Não sou de frequentar igrejas, mas já me senti bem com as experiências religiosas que tive no passado e confesso, por mais que tenha meus questionamentos, há em mim uma tendência a crer.
Crer não exatamente no que as pessoas indicam como religião e comportamentos por elas ditados, mas crer no bem, no amor, na justiça, na solidariedade, na comunhão entre as pessoas, na compaixão, na caridade, no perdão, na compreensão, no acolhimento e no Deus que inspira esse modo de ser.
Confesso também que a recente confusão entre política e religião no Brasil e sua partidarização me deixaram menos propenso a frequentar templos, uma vez que, a meu ver, um modo de pensar e agir politicamente que vai contra o básico do Cristianismo coloca aí uma contradição insuperável.
Lembro do modo de ser religioso da minha avó Terezinha, o qual me inspira. Para ela, acredito, fazer a vontade de Deus era amar o próximo e a ele ser solidário em suas necessidades, preocupar-se, cuidar, respeitar. No leito de morte não se preocupava consigo, mas com os outros que também sofriam a seu lado.
Essa capacidade de empatia e cuidado com os outros me parece o ápice do ser Cristão, porque Cristo morreu na cruz pelos pecados de pecadores, ele não veio para crucificá-los, mas para amá-los, perdoá-los, redimi-los. Há essa beleza que me encanta nos exemplos de abnegação. E daí extraí minha pouco embasada compreensão de fé, religiosidade, embora cada um possua a sua.
Já conheci católicos, evangélicos, espíritas, agnósticos etc. com essa mesma ideia de religiosidade como instrumento que permite confortar-se e ser uma pessoa melhor na convivência com outros seres, fazendo do mundo um lugar melhor para todos.
Pessoas simples e pessoas eruditas capazes de saber o que é o bem e o que é o mal em escala reduzida, porque penso que apenas aí se possa tirar essas medidas, porque tudo que se coloca como o bem amplo, pode gerar um mal impensável. Não é à toa que em nome de um suposto “bem”, as maiores atrocidades pensáveis já foram praticadas.
Posso errar e ser apedrejado de críticas ao escrever esse texto, mas penso que temos de ter cuidado com um sentir religioso que conclama à violência, ao ódio, à exclusão e à eliminação do outro. Isso me parece mais uma forma de manipulação do sentir íntimo das pessoas a partir da disseminação do medo para que reajam de maneira desproporcional contra um outro que é colocado como inimigo e ameaça. Do pouco que conheço, julgar não é tarefa humana, ao menos no sentido religioso. Jesus, pelo que consta, tornou santos alguns pecadores. Aqueles que julgam, são violentos e odeiam, foram os que o crucificaram.
O mal se traveste de bem com uma capacidade absurda, cega e ensurdece, faz as pessoas agirem como autômatos, mas no fundo, acredito que saibam o que fazem, não podem ser completamente ingênuos. Não é fácil ser bom, mas parece fácil ser de bem como alguns se intitulam, é só seguir a corrente, obedecer líderes, apedrejar e crucificar supostos pecadores, sem tirar a trave do próprio olho.
Paixões, paixões egoísticas, emoções violentas, vontade de poder subjugar, suprimir o diferente. Isso não me parece religiosidade. Isso me parece a repetição da barbárie, o ovo da serpente, a falha no processo de educar para que o imenso mal não se repita, para que a desumanidade não prevaleça, para que nossas bombas não nos levem à extinção.
A religião é imaterial, o templo pode ser o corpo, mas é na alma que deve residir o sagrado. A fé, penso, é intangível. Os símbolos podem ser respeitados, mas o que há por detrás deles é muito mais importante, o que resiste ao tempo. Se as igrejas caem, a fé persiste, nas almas e corações. Que se mantenham de pé, que sejam espaços de acolhimento, solidariedade, esperança, intimidade com o sagrado, mas que não seja apenas ali o local de manifestação da religiosidade no sentido de fazer o bem, de acolher, compreender.
Penso que a fé não deve servir como um signo distintivo do qual me aproprio e me considero superior aos outros, com direitos de advertir, julgar e punir o outro, de perseguir e difamar.
Pode ser inoportuno, incômodo, errado, que uma manifestação política ingresse numa igreja, embora muitas delas ocorram em seu interior, de dentro para fora, sem vandalismo ou violência, como acontece contra a alguns cultos minoritários. Um precedente que acredito não deva ser seguido.
Porém, não devemos nos enganar com os hipócritas, aproveitadores e oportunistas, religiosos de fachada que politizam a questão, criam falsas notícias, disseminam ódio e se mostram pouco preocupados com a religião e a fé, com o reino dos céus e muito preocupados com a vantagem política que isso pode lhes render ao despertar injustificadamente o medo nas pessoas e a partir desse medo, leva-las a agirem em favor dele e contra elas próprias. Para que em teoria elas acreditem defender a fé, mas na prática permitam retirar delas a possibilidade de subsistência digna (saúde, alimentação, educação, segurança, emprego), para manter os privilégios desses políticos oportunistas e covardes, que não se preocupam com ninguém além deles mesmos e nada farão pela fé ou qualquer outra coisa que nãos lhes traga vantagem na forma de dinheiro e poder.







