Arte é coisa de comunista? Não necessariamente, porém é impossível uma arte que seja conservadora

Existe uma linha tênue entre a experiência artística e a própria experiência política. Pensar arte é também pensar uma concepção de posicionamento político perante os conflitos que movem o ser humano em seu contato com a realidade.

 

Fazer arte é, também, posicionar-se politicamente.
Não é política como partidarismo, mas política como o interesse por aquilo que é público. Interesse pelos tópicos e dilemas que envolvem a sociedade nos mais variados períodos.

Existe muita confusão no que tange aos fazeres expressivos que estão situados na esfera da arte e na esfera da cultura. Sim, cultura e arte são coisas diferentes ! E, sim !  Não pode existir uma arte que seja conservadora.

Isso não significa que tal área seja de domínio exclusivo da esquerda. Se veio pelo hype da polarização, se deu mal ! (mas continue com a gente).
Dizer que não pode existir uma arte conservadora é apontar para a motivação primeira dessa modalidade expressiva que é, em si, transgressora, provocadora e questionadora.
Para desenvolver essa ideia primeiro precisamos localizar o que é cultura e o que é a arte.
Comecemos por aí.
No seu texto ‘Cultura’, o antropólogo Darcy Ribeiro aponta  que “Chama-se cultura tudo o que é feito pelos homens, ou resulta do trabalho deles e de seus pensamentos.”
Assim, todo mundo é dotado de cultura. Todas as pessoas são seres culturais. Ter cultura não é sinônimo de ser um indivíduo tocado ou especial, como muitos acreditam.  Possuir cultura é  cultivar valores, de ordem prática e simbólica sobre nossa interação com o mundo natural, com as pessoas, com nossos pensamentos e com os nossos anseios.
Ela, a cultura, é a mão que nos conforta, que nos proporciona identidade, história e tradição.
Cultura é o cultivar, sejam valores, sejam hábitos, sejam costumes.
Por outro lado:
A arte aparece como um fazer de contestação da ordem, das grandes ideias, daquilo tudo que já é estabelecido como o de costume. Numa frase simples e direita para elucidar tal ideia podemos dizer que a arte edita o que a cultura dita.
Seja nos diferentes períodos históricos, tais como o barroco, o romantismo, o modernismo, a obra de arte sempre apareceu como a superação de elementos estabelecidos como a norma. Por exemplo, no renascimento o jogo de luz e sombra surpreendeu ao lançar um novo tipo de proposta sobre a pintura. É uma ação artística dada pela superação e expansão do entendimento do próprio fazer através de critérios técnicos. Outro exemplo, no impressionismo ao invés de delimitar formas precisas, com contornos bem traçados, os artistas começaram a pintar suas impressões da incidência de luz sobre os objetos.
Mais um exemplo: o expressionismo foi mais além, debruçou-se por revelar a expressão pessoal-subjetiva sobre as impressões do mundo sensível. No pensamento desse movimento o importante não seria mais a busca incessante pela retratação realista do mundo. Para isso já haveria a técnica da fotografia.
O importante, naquele momento, seria o olhar subjetivo. Criou-se ali outra categoria de entendimento sobre o mundo e sobre as coisas. Mais tarde Paul Klee, importante ensaísta e artista plástico do século passado, veio elucidar essa ideia numa frase que tornou-se célebre. Segundo ele “a arte não reproduz o visível, mas sim torna visível.”
O pensamento artístico está em constante  mutação, porém sempre  questionador. Tal afirmação ganha mais ressonância quando G. Deleuze, filósofo, tece um comentário sobre a obra de arte dizendo que “existe uma afinidade fundamental entre a obra de arte e o ato de resistência.”
A arte não conserva, não se limita e nem se delimita. A arte não deve nada à ninguém. A arte não tem utilidade fora dela mesma (e nem precisa).
Mas afinal de contas, então para que arte?
Nas palavras do poeta Ferreira Gullar, porque a vida, e completamos, só a vida, não basta !
Viva, mas também permita-se sonhar !
Na foto: G. Deleuze. Fonte da imagem: https://revistacult.uol.com.br/home/dialogos-entre-filosofia-e-arte/

Este texto é resultado de um trabalho voluntário, e é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Portal Carta do Mar e seus administradores..

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