“O amor é o oxigênio da poesia”: o pensamento estético na poesia de Danilo Fernando

A obra de arte é objeto-processo capaz de tornar perceptível uma série de inquietações do artista no que tange à sua expressão, criatividade e intencionalidade. Na busca de tentar compreender como a arte está se constituindo na cabeça daqueles que a pensam e a compõe, iniciaremos uma série de entrevistas na tentativa de descobrir o artista para além da obra; descobrir o artista sujeito, indivíduo e dotado de singularidades.

Iniciando essa jornada temos o prazer de receber o poeta andiraense Danilo Fernando.

Graduado em filosofia (UENP), graduando em letras (UENP) e advogado, o trabalho artístico de Danilo Fernando ecoa por toda uma geração através de letras de músicas, poesias e crônicas. Convidamos o amigo leitor a descobrir do processo criativo de quem pensa a arte pelas letras no norte do Paraná.

CARTA DO MAR: Fazer poesia é um prazer ou uma maneira de canalizar a dor? O poeta é feliz?

R: Pergunta difícil, porém necessária. Não sei se a minha resposta alcança todos os poetas, porque penso que cada ser é um universo complexo e, talvez, o poeta se diferencie por tentar dizer o indizível, por ser afetado de uma forma mais intensa tanto pela alegria quanto pela tristeza. Conheço poetas felizes em sua infinita dor e poetas tristes em sua exagerada alegria. Sentir intensamente e não ser capaz de guardar em si esse sentir me parece caracterizar o poeta, ou não. Não sei se posso me denominar poeta, se o meu conceito é adequado para os outros, mas me dando essa liberdade e assumindo essa condição, sem mais rodeios vou tentar responder de forma mais objetiva sobre essa inobjetividade poética.

Fazer poesia é um prazer com dor, para mim, um aliviar-se e um dilacerar-se e ter nessa dor uma alegria e nessa alegria uma dor. Trata-se de uma contrariedade e de uma simultaneidade indizíveis. Não é uma escolha, mas um modo de ser. Ao fazer poesia não procuro sentir a dor, nem o prazer, apenas as deixo fluir, paro de me conter, de represar as sensações e pensamentos, palavras que os tentam expressar. É um desatar-se, um soltar-se num pulo sem paraquedas sobre um abismo de modo consciente tornar-se inconsciente. É uma exigência interna, um não fugir de si, do que se é, porque fazê-lo sufoca e mata. Tenho um texto em que tento discorrer sobre isso, já tem mais de dez anos, lá eu digo que os poetas morrem cedo, de amor e de medo, a realidade os maltrata, mas que sempre renascem, porque enquanto há vida, esse sopro não para, essa necessidade de romper as grades da alma, do que se passa internamente, da reação em relação ao mundo e as vivências e coisas que não se sabe de onde vêm, mas estão ali.

CARTA DO MAR: Como começa e quando saber que a obra esta terminada? Qual o seu processo criativo?

R: Meu processo criativo é um derramar-se, talvez por estar sempre contido, vivendo a vida como “deve ser vivida”, deixando a arte escondida, calada, sufocada de certo modo – porque tudo é tão rápido, a vida tão insanamente compromissada-, é como aquela dor que incomoda no bom sentido, que sempre me lembra de que está ali. Quando é impossível calar a obra se derrama em linhas, vem pronta e acabada, quase não reviso, ela já foi se formando ali, uma ideia persistente de dizer sobre algo. Foi sendo gestada, processada pelos sentidos e tudo mais que não se define. As palavras saem como uma enchente uma represa que se rompeu, um grito que já ecoava por todo o ser e foi ocupar seu lugar no papel, na tela. Eu faria poesia todo dia o tempo todo, eu viveria dessa forma mais intensa e viva, do dizer da beleza, alegria e tristeza se me fosse permitido, mas sou só um ex-jovem, um ex-poeta, um ex-sonhador engolido pela rotina e as ocupações que fazem da vida algo de sem sentido, embora eu escape e tente colocar nela, em cada coisa que faço um pouco dessa vivacidade, desse amor indizível pelo que existe de bom e de belo, de agradável e que inspira, que confere um sentido melhor à existência.

CARTA DO MAR: O amor é tema latente nos textos poéticos, da antiguidade clássica até os contemporâneos. É um tema já esgotado?

R: Penso que não. Já escrevi e escrevo muito sobre o amor em todas as suas concepções, o amor de algum modo nos torna melhores, penso. A capacidade de querer um bem para si e para os outros, um bem compartilhado, um sentir-se amado, um sentir amar. Quando não houver amor, não haverá poesia e quando não houver poesia não haverá mais vida, porque não haverá mais esperança e não haverá mais sonho e a realidade sem isso, já não se pode chamar de vida. A falta de amor, de sensibilidade, de perceber o outro e a si, nos leva ao caminho da autodestruição. Sem amor não há passado, presente ou futuro, apenas destruição, tristeza, lamento e dor, isso de modo incontornável, não aquela tristeza que Vinícius de Moraes diz ter sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não. O amor é o oxigênio da poesia, o ar que ela sempre respira e o que nos permite conservar nossa existência.

CARTA DO MAR: Leminski dizia que os povos amam seus poetas. Hoje, num país tomado pela polarização e pelo discurso de ódio contra a classe artística, você concorda? Do que é feito o poeta? Qual a função do poeta?

R: Se houver tempo esse amor existe, mas nosso tempo é roubado, nossa vida é roubada nessa lógica de consumo, somos distraídos, atarefados, deixamos de ser para nós e nos tornamos para os outros, instrumentos de outros que são instrumentos do lucro, enquanto deus invisível que nos faz adoecer e morrer, nos sacrificarmos, passarmos pela vida sem de fato vivê-la, sem percebê-la. Nossos afetos, nossas relações, tudo é modulado. A poesia, a arte, pinga como gota num deserto árido, mata uma sede que pensamos não sentir, estimulam o ódio, porque aí as pessoas sentem sua humanidade, o ódio é a poesia desvirtuada, o escape da falta de emoções, esse ódio reflete a falta de amor, a falta de arte, a falta de liberdade, esse ódio me parece o derramamento do que é contido de forma negativa, de forma destrutiva. Ama-se o ódio, porque se tem ensinado a odiar o amor e por não se poder amar, irracionaliza-se tudo e se quer destruir tudo, a si e aos outros. O egoísmo mata. O ódio ao poeta é o ódio a vida livre e repleta de amor e de dor, de alegria e tristeza, é o desejo de domínio, a crueldade que a tantos encanta, é o querer calar o que pode derrubar o poder. Por ódio se mata, mas por amor se vive. É preciso mais coragem para amar do que para odiar, quem ama algo ou alguém, verdadeiramente, possui muito mais coragem do que aquele que odeia. Amor inspira solidariedade, acolhimento, por isso é politicamente perseguido, assim como a poesia e as artes, precisamos ser desumanizados, robotizados para um melhor controle e uso. O poeta é feito de universo e infinito, da carne ao espírito, da palavra ao pensamento, do todo e da parte, dele mesmo e de todos os outros que com ele compartilham a existência. Essa consciência de ser parte e ser todo o conecta de forma mais íntima ao cosmos, ele se sente o grão de areia da praia e ao mesmo tempo a grandiosidade das estrelas que brilham no céu. A função do poeta é ser para que possa existir, não se coloca um fim, porque não se define ou limita, ele está no mundo para conviver aprender e ensinar, talvez funcione como abrigo, oásis, por colocar em palavras e fazer sentir acolhidos ou desafiados aqueles que não conseguem se exprimir.

CARTA DO MAR: Pra que serve, ou a quem serve, a poesia?

A liberdade, penso, deve caracterizar a poesia, sem ser servil. Ela serve, porque se oferece como uma espécie de alimento, sem servir a ninguém, não trabalha em busca de algo específico. Serve para o poeta? Não, porque se serve dele para vir ao mundo sem pedir licença, é maior que o poeta, ultrapassa ele antes e depois de vir ao mundo. Há uma resposta a essa questão que Deleuze dá à pergunta sobre para que serve à Filosofia que penso ser aplicável aqui, para a arte em geral, talvez:“Quando alguém pergunta para que serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja, que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas.”A poesia, a filosofia, a arte, penso, servem para tudo aquilo que as outras coisas criadas e pensadas não servem e das quais necessitamos tanto ou mais do que para aquelas

CARTA DO MAR: Quanta poesia pode existir no ser advogado?

A poesia está sempre para além da ocupação e do ofício. O modo de ver a vida pode ser poético, a maneira de atuar, as convicções. Confesso que é difícil identificar a poesia no ser advogado em si, mas a poesia, penso e sinto, atravessa toda a nossa realidade, e a do poeta não seria diferente. A poesia me salva e me inspira, me cura, torna-me quem sou, ainda quando parece não estar relacionada. No ser há poesia, no advogado e na advocacia também, porque é só o predicado, o sujeito permanece, o sujeito opera de acordo com aquilo que é em essência, em qualquer área que atue. Se a pergunta é mais geral, também, porque a poesia está no olhar o mundo de forma mais detida, para quem tem olhos para ver, a poesia estará em todos os lugares, porque tudo faz sentir, pensar, afetar, viver. Poesia é vida. Há beleza numa audiência, numa petição, porque há vidas, há sonhos, há toda a complexidade que serve de matéria prima ao poeta. Há lágrimas, alegrias, sucessos e derrotas. Existe poesia no ser advogado, deveria haver mais poesia em todas as áreas e menos cegueira quanto à presença da poesia. A vida seria melhor, acredito.

 

 
 

Este texto é resultado de um trabalho voluntário, e é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Portal Carta do Mar e seus administradores..

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.
Você precisa concordar com os termos para prosseguir

Nenhum comentário

Postagens semelhantes:

aaaaad
Menu