A Inconsequente Inconsciência da Virtualização da Vida ou a Inconsequência Inconsciente da Realização da Virtualidade

https://oficinadamente.com/o-homem-contemporaneo-e-seu-processo-de-desintegracao/
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Os meus maiores problemas se dão quando penso. Talvez a maioria das pessoas seja assim e não sei se pensar é uma maldição ou uma dádiva. Os problemas podem ter ou não solução e esse não é o problema. O problema é pensar em todas as possibilidades e impossibilidades. Pensar, por vezes, nos impede de nos mover, de praticar uma ação, mas agir sem pensar também não é aconselhável. Complicado é pensar demais, é pensar além, desistir antes de tentar, não arriscar.
 
Há dois modos de viver, com riscos ou sem, porém, viver sem riscos é o maior dos riscos, porque pode se perder a vida, vê-la passar sem sentido e permanecer com todos os arrependimentos pelo não ter tentado e talvez conseguido realizar aquele grande sonho, aquele grande projeto, ainda pequeno, simples, que talvez se resuma a ser feliz, ou triste, mas um triste consciente de que não foi a falta de coragem ou ousadia, o medo, que o impediu.
 
Eu já não sei quantos planos e sonhos deixei para trás. Não sei quantas vezes comecei algo e não terminei. Quantas vezes disse vou fazer e não fiz. Parece haver algo em mim que impeça um comprometimento tal que me leve a realizar as coisas que minha mente concebe. Há um prévio cansaço, um enfastiar-se com o quanto é maçante ter planos, objetivos e foco, porque a vida é tão ampla, os interesses tão diversos.
 
É triste que nos limite o tempo, que escolhas tenham de ser tomadas, que caminhos precisem ser seguidos para se chegar. Há um medo de se dedicar completamente a algo e, por fim, descobrir não ser aquilo tão satisfatório quanto parecia. Talvez seja a alma de poeta, o pendor artístico de desafiar as regras, de querer escrever a história nas margens, por entre as linhas, de sonhar desafiar os limites, de querer alegria e beleza na vida, de não se conformar com o copo meio cheio. Os práticos dirão que é preguiça, falta de empenho, vagabundagem, num mundo em que se prestigia o trabalho mais que tudo.
 
Não é! Para além do trabalho, deve haver um sentido, uma motivação maior, uma realização e o reconhecimento de um sucesso não medido pela régua alheia. A insatisfação é o que nos move, o impulso que leva adiante, para trás ou para os lados, porque o mover da vida não é uma linha reta ascendente posicionada num gráfico e a vida não se mede desse modo. Somos seres complexos, alguns complexos demais, complexos a ponto de saber como jogar e talvez vencer o jogo, mas não convencidos de participar, de se dedicar a esse objetivo.
 
A vida vai passar, algumas décadas, na melhor das hipóteses um século. Nesse instante da eternidade temos a opção de pensar ou fazer, uma coisa ou outra com mais intensidade. Será preciso entender quem somos e os porquês disso? O que podemos nos tornar, segundo as escolhas que fazemos? Sinto que preciso impor a mim uma rígida disciplina, que não posso mais viver do acaso, que “distraído talvez não possa vencer”.
 
Vencer o quê? Quem são meus competidores? O que quero mostrar? Que valor quero provar a mim mesmo e aos outros? É engraçado como a vida é o prêmio, a vitória conquistada e insistamos em correr, desfazer dela, negá-la em favor de disputas com nós mesmos, de pensamentos externos que nos influenciam a deixá-la passar, investindo tempo e energia em projetos e planos incapazes de nos permitir aproveitar a vida, carpe diem.
 
É interessante pensar na vida como o prêmio a ser desfrutado, aproveitado, a oportunidade única de fazer sentido para si mesmo, de estar bem consigo, de seguir seu próprio ritmo, de ter prazer até na dor, que dói apenas porque faltou amor à vida, pelos arrependimentos, pelas cobranças insistentes, pela insatisfação de ter tudo que é necessário e querer, ao que parece, uma vida virtual, inventada por outros e vendida para nós como ideal.
 
Penso na felicidade dos não inseridos nessa fábrica de ansiedades, capazes de admirar o nascer e o pôr do sol, contemplar as estrelas, ouvir o barulho da natureza e vento soprando, contemplar o belo naquilo que é gratuito, vivenciar o amor e o prazer num abraço, num olhar, enxergar a perfeição nas pausas, nos momentos de absoluta liberdade e conexão com o universo que nos circunda. É nesse perder-se, nesse misturar-se, nesse conectar e dissolver-se na infinitude, nesse caminhar por entre as nuvens que a realidade deixa de ser virtual e ideal.
 
Grande parte das nossas necessidades são criadas, de seres humanos a seres consumidores, destruidores da natureza e das outras espécies com as quais dividimos a nossa casa-planeta. Acho que mudei de ideia e agora penso que o problema real é o não pensar, o caminhar na direção oposta da vida, da felicidade, do contentamento e do prazer.
 
Não somos máquinas. Talvez nunca seremos. Se máquinas, maquinas desejantes como dizem sábios e ousados filósofos. Em um momento em que tentam nos programar e reprogramar, fazer amar, querer e odiar, vamos perdendo a humanidade, a sensibilidade, a esperança, a capacidade de criar, de desenredar essa trama que nos prende em teias e nos suga a energia, a vida, nos torna alheios à vida que pulsa ao nosso redor, levando-nos a incinerar nossa própria morada e destruir a troco de nada aqueles da nossa espécie ou de outras.
 
A gente está morrendo aos poucos, não apenas os corpos físicos, mas as estruturas conscientes da nossa mente, estamos sendo sugados por uma virtualização e agindo como em jogos de videogames. Involuímos, líamos os livros, depois passamos a ler o resumo, apenas o índice e hoje apenas a capa ou o somente o nome do autor – é assim que agimos e julgamos as outras pessoas. Essa rotulação e essa falta de profundidade em todos os aspectos da vida tem nos tornado autômatos como relógios que se movem mecanicamente e sem reflexão sobre o movimento.
 
Não faz sentido explicitar a intenção de um texto, mas confesso ter querido produzir aqui um texto de esperança, mas acabou sendo uma reflexão para talvez provocar reflexões. Espero não ter trazido tristeza, frustração ou desesperança. Penso que precisamos pensar e que por mais que isso seja doloroso e difícil, cansativo e talvez chato, parece algo necessário para evitar maior destruição e sofrimento, precisamos estar conscientes, não há anestesia bastante e não vai durar o suficiente. Podemos viver melhor, fazer melhor, precisamos acreditar nisso, nossa ação transforma a realidade, querer mais e melhor. Pode soar autoajuda, tudo bem.
 
Todos precisamos de ajuda às vezes e isso não é vergonhoso, mas ninguém é capaz de nos arrastar se não nos movermos, depende de cada um e todas as forças são importantes para se caminhar ou poder permanecer no mesmo lugar, conforme a sua opção. Sinto que retrocedi no tempo para o estilo de texto que produzia numa juventude sonhadora e crédula, embora agora não disfarce os espinhos da bela e complexa rosa da vida.
 
Esse texto seria infinito…mas a vida é breve… o infinito não cabe num ser finito… mas dele se desprende e continua em frente com as palavras lançadas, semeadas no até outrora fértil terreno das mentes humanas conscientes das inconsistências dos ideais de vida fabricados.

Este texto é resultado de um trabalho voluntário, e é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Portal Carta do Mar e seus administradores..

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