Esperança é coragem; ódio é medo

Foto ilustrativa: greenaperture by Getty Images

Cansaço, desesperança, falta de alegria de viver. Muitos estão doentes, cheios de um vazio imenso que provoca um torpor intenso. Não há sentido, enquanto direção a seguir. Tem-se fome, vontade de algo que transgrida a monotonia do sobreviver ao passar dos dias.

Oferecem-nos ódio, guerra, violência e opressão, uma coerção externa que promete nos guiar ao maravilhoso estado da ordem, onde tudo permanece no seu “devido” lugar, onde liberdade é poder obedecer a autoridade de outrem, ainda que esta contrarie o bem-estar próprio e de muitos outros. Querer poder obedecer é querer não poder nada; é renunciar a condição de ser livre e pensante; é morrer, enquanto se vive a respirar com imensa dificuldade.

Esse ódio não pode construir nada além da destruição. Não nos traz esperança alguma. Não implica paz, porque “paz sem voz”, como diz a canção, “não é paz, é medo”. O medo não pode ser o sentimento que conduz nossa existência. O medo irracionaliza e retira nossa sensibilidade. O sentimento mais humano, levado ao extremo, nos desumaniza e destrói tudo que pode haver de bom e bonito no mundo.

O outro não deve ser nosso inimigo! Apenas a compreensão, a empatia, o amor, podem nos salvar, porque a esperança tem o poder de vencer o medo, de nos mover adiante. A esperança preenche o vazio de nossas existências e permite construir novas realidades, um mundo melhor para se viver. Ou você sinceramente acredita que nada pode ser melhor? Se sim, então porque lutar, desgastar-se tanto por nada? Se o amor não vale a pena o que se dirá do ódio?

Ser violento não é ser corajoso, é ser covarde no mais alto grau, porque a violência é um ato de imposição da vontade própria ao outro, desconsiderando o valor humano da outra pessoa. E quando isto é feito, indiretamente, permite-se que o outro venha a impor sobre você a superioridade da força e da razão irracional do achar-se mais forte e merecedor. Todos contra todos, na base da força e da violência e, parabéns, que êxito, construímos um mundo maravilhoso para nós e nossos filhos.

Como disse o homem que efetuou uma revolução sem ferir ninguém: “a não-violência não é capa para ocultar a covardia, mas sim a maior virtude dos corajosos, porque pressupõe a capacidade de ferir”. Corajoso é aquele que, podendo ferir, não o faz, porque destruir não é vencer.

Quando a esperança acabar, quando não houver opção, quando o ódio for a única força do mundo, acredito que nada poderá ser edificado, que sociedade alguma poderá ser mantida. Porque o que agrega, o que une, são sonhos e esperanças, crenças compartilhadas, coisas que se perdem e sequer poderiam existir num mundo em que força é sinônimo de poder e violência o instrumento fundamental da busca por estabilidade.

Como ouvia quando criança: “violência gera violência”. A violência cega, o ódio, no decorrer da história, foram causas de tantas atrocidades, da barbárie e desumanização.

E dirão: Palavras belas nada podem fazer, sonhos utópicos de um mundo pacífico não são realizáveis. Esperança é pura ilusão. Mas o que nos trouxe até aqui? Até ontem, quando ainda acreditávamos na possibilidade de viver melhor? Lembro de quando realmente eu me sentia mais forte, sem precisar ser violento de modo algum. Eram os sonhos, as esperanças, a realização das expectativas que moviam meu caminhar. Desarmado de ódio e ressentimento, podia abraçar e amar, acreditar e confiar no meu semelhante, livre para poder buscar o acolhimento da bondade das pessoas que ainda com pouco conseguiam sorrir.

Não é o governo apenas, mas o estado de espírito que preocupa. Preocupante, como disse outro revolucionário não violento “não é a violência de poucos, mas o silêncio de muitos” a aceitar a banalização da violência e do medo. Rancor, ódio, violência e incompreensão, além de fazer sentir esgotado e infeliz, sedento pelo sangue e pela dor do inimigo, contrariam a mais rasa das perspectivas racionais de existência individual e coletiva do humano.

Este texto é resultado de um trabalho voluntário, e é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Portal Carta do Mar e seus administradores..

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