Da Revolta à Guerra Política da Vacina

Não é de se estranhar uma situação há 116 anos na qual a população do Rio de Janeiro revoltou-se contra os poderes públicos municipais e federais diante da campanha de vacinação obrigatória. Na época, as ruas da capital federal acumulavam-se toneladas de lixos, facilitando a proliferação da varíola e de outras doenças como a peste bubônica e a febre amarela.

Com o sentido de sanear a então capital federal e promover sua reurbanização, visto que os traçados e as estruturas citadinas ainda continham marcas do período colonial, o presidente Rodrigues Alves nomeou para prefeito o engenheiro Pereira Passos e o médico sanitarista Oswaldo Cruz como Diretor da Saúde Pública. Assim, em 1904 iniciou-se dois processos: o remodelamento da cidade do Rio de Janeiro, com a construção de avenidas largas, e uma campanha de vacinação obrigatória para a erradicação das doenças.

Entretanto, a reurbanização desalojou os mais pobres de suas moradias a partir da demolição dos cortiços e casebres antigos do centro da cidade. Esta população não foi remanejada pelo poder público à outra área urbana, restando à ela de maneira forçosa mudar-se para os morros, intensificando-se o processo de favelização.

Paralelamente a tal processo, as casas eram invadidas autoritariamente pelos agentes sanitários para acabar com os focos da doença (lixo e ratos) e promover a vacinação obrigatória. No entanto, não houve uma política de conscientização sobre a necessidade da vacinação. Frente a este contexto, políticos e a própria população revoltou-se contra a vacina. A imprensa não se conteve em ironizar o acontecimento mediante charges que questionavam a eficácia do líquido contido nas seringas. Agitadores e radicais alegavam o direito de preservação do próprio corpo e incitavam a população a lutar contra os agentes sanitários.

O cenário da revolta estava montado diante do descontentamento e entre os dias 10 e 16 de novembro de 1904 as camadas populares do Rio de Janeiro saíram às ruas num clima de enfrentamento. Edifícios depedrados, bondes derrubados e conflitos entre os populares e a polícia na Avenida Central. O movimento foi sufocado com algumas pessoas presas e a Lei de Vacinação Obrigatória sendo modificada para o uso facultativo.

Hoje vivemos um contexto um tanto quanto distinto do início do século XX, no entanto alguns paralelos comparativos podem ser traçados. Em 2020, instaurou-se uma pandemia sem precedentes e chegamos hoje a marca de quase 185 mil mortos. Mesmo com esse quadro assustador, há ainda quem aposte em soluções medicamentosas milagrosas e negue a vacinação com sua obrigatoriedade.

Embora haja o negacionismo por parte de setores da sociedade e do poder público brasileiro, a necessidade urgente da vacinação contra o coronavírus é incontestável pela maioria. Sendo assim, não há clima social por uma revolta contra a vacinação como em 1904. Por outro lado, o que vimos nas últimas 2 semanas foi uma “guerra” de poder e de egos entre o governador de São Paulo João Doria e o presidente Jair Bolsonaro.

O governador de São Paulo anunciou antecipadamente que iniciaria a vacinação contra o coronavírus em 25 de janeiro mediante a utilização da Coronavac, vacina chinesa produzida pelo Instituto Butantan. Em contrapartida, o Ministério da Saúde alegou que o estado de São Paulo não poderia sair na frente dos demais entes da federação, visto que uma campanha de vacinação deve ser encaminhada pelo SUS, sendo portanto unificada e uniforme para todos. Essa guerra política pela vacina tem sido um espelho da corrida presidencial de 2022 e não visa o bem comum, visto que nós, brasileiros, seremos os principais prejudicados pelo atraso da operacionalização do calendário de imunização nacional.

Este texto é resultado de um trabalho voluntário, e é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Portal Carta do Mar e seus administradores..

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