
Acredito que nenhum ser humano deva ser chamado de burro. Isso não parece ser uma comparação justa, porque não há como dizer que um burro possa ser ignorante. De burro o homem pode ter a habilidade de deixar-se ser explorado, carregar um peso excessivo para que outros vivam sem esforço. Logo, o humano não pode ser chamado de burro quando lhe falta conhecimento ou quando conhece a realidade de forma distorcida. Mas pode ser chamado de ignorante.
Mas afinal o que é a ignorância? Ignorante é aquele que não sabe sobre algo, não domina determinado tema, ou seja, quem carece de conhecimento.
Pois bem, todos somos ignorantes em algum aspecto, na teoria ou na prática, e um dos objetivos da ciência, um dos motores da humanidade, que nos fez avançar até aqui, foi o combate contínuo da nossa ignorância, enquanto espécie, do funcionamento do mundo, desvendando as razões ocultas e compreendendo os fenômenos por meio da observação e análise.
O sentido moderno de ignorância remete àquele que se recusa a aprender, a buscar o saber, e nega o conhecimento adquirido e acumulado ou aceita algum conhecimento não comprovado sem refletir sobre ele.
Todo ser humano tende a reafirmar suas crenças, e não falo aqui somente de crença no sentido religioso, mas no sentido de visão e opinião sobre o mundo e as pessoas ao seu redor. Mas o que eu acho não pode ser uma crença. O que eu acho não é o que eu sei. O que me dizem e se acomoda ao que eu acho não é necessariamente certo apenas porque reafirma o que penso.
Fui educado no sentido de que vencer a ignorância, aprender e conhecer era algo bom e que deveria admirar pessoas que conhecem muito sobre algo ou um pouco sobre muitas coisas, que saber cada vez mais era um objetivo de vida e nos tornava seres mais preparados para enfrentar e resolver problemas.
Aprendi que todo problema complexo e difícil pede uma solução igualmente complexa e difícil e isso só é possível por meio de esforço intelectual, observação, análise, reflexão e propostas de ação para mudança. Descobri que toda decisão não pensada é perigosa e pode criar novos problemas ao invés de resolver algum.
Mas, de repente, tudo mudou, e vivemos a era da “ignorância ostentação” (termo que ouvi em algum lugar que não me recordo). Louvam e aplaudem o desastre, porque é cômodo não saber, é cômodo o discurso de que os problemas não existem ou que suas soluções são fáceis, é mais fácil ignorar, é mais fácil ser ignorante, é mais fácil não aprender e manifestar-se nos seguintes termos:
“(…) dane-se você que sabe alguma coisa, quero mais é viver sem saber nada, você está errado porque eu acho e tem quem ache o mesmo, e se encher muito a minha paciência eu acabo com a sua incômoda existência. Eu não preciso de mais nada, basta poder odiar e ver o mundo pela tela do meu celular. Deixe-me reclamar eu sempre vou encontrar um culpado pelas minhas frustrações.
Deixe-me ser manipulado por quem diz que me liberta e protege, deixe-me ser gado, bovino pacífico a caminhar feliz para o abate, afinal faz parte, deixe-me morrer, deixe-me acreditar que o mundo é aquilo que a minha mente aceita e não aquilo que meus olhos podem ver e minha carne sente.
Deixe-me gritar, deixe-me matar, deixe-me destruir, deixe-me aniquilar, que me farto e contento com a consequente destruição de mim mesmo num mundo em pedaços. A escuridão é a luz que me guia, o poder sobre o nada e o sofrimento alheio me alegram. Não quero construir nada, destruir é a minha sina, sou o mal fantasiado de bem, o mal que extirpa o humano e tudo de bom e bonito que a espécie já foi capaz de criar.
Ostento sim minha ignorância, mesmo que ela decrete o meu fim e de tudo e todos ao meu redor.”
Não concordo com tamanha insensatez, essa paixão cega pela ignorância e a sua divinização não traz nem promete nada de bom a ninguém. Esse prazer insano e doentio não pode ser a tradução do humano moderno. Temos pessoas para cuidar, problemas ambientais para solucionar, uma pandemia a superar, vidas para salvar e preservar, uma vida para viver e sonhos para sonhar e realizar.
Vale a pena sacrificar toda a esperança em favor de um ódio irracional que nos separa uns dos outros e nos torna infelizes e tristes, sem expectativas, destroçados e indigentes disputando violentamente as migalhas que nos sobram? É esse o futuro que queremos? É por isso que tantos esforços foram realizados durante a história? Para chegarmos até aqui e destruirmos tudo, aniquilarmos a nós mesmos e sermos ignorantes o suficiente para não perceber que para o benefício provisório de muito poucos sacrificamos nossa vida e a de quem amamos em toda a sua extensão?







