ORGANIZAÇÃO

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Eu preciso de listas, de agendas. Não sei porque sou tão avesso a elas. Eu preciso dominar o tempo. Preciso do meu próprio tempo. Tempo que eu não sinta como sendo desperdiçado. Tempo que eu não considere que deveria estar sendo aplicado em outra coisa que não aquela que estou fazendo. Então sempre digo que não tenho tempo.

E continuo perdendo tempo. Não devo culpar o tempo, ele é imparcial, o mesmo nascer e pôr do sol, o mesmo nascer e deixar de existir.

Preciso organizar-me, como o organismo que executa suas funções devidamente enquanto não está doente, enquanto são e capaz.

As pessoas têm adoecido, escravizadas pelo tempo que sempre admite uma tarefa a mais, talvez simultânea ou simultâneas.

Eu corro contra e a favor do tempo, queria poder mais, fazer mais, mas tudo já parece demais para o tempo disponível. Talvez organizando melhor.

Entretanto, não é tanto. Atribuo essa sensação à minha rebeldia antiagenda e antilistas. Essa teimosia de querer confiar na capacidade mental e sentir a liberdade de estabelecer o próprio tempo e momento de fazer as coisas.

Mas isso faz sofrer demais, porque o tempo é escasso e a vida não espera, tudo a volta é urgente, menos a esfera íntima da gente, o querer o prazer da sensação do nada e do tudo, da liberdade de pensar em tudo e em nada, de talvez criar o novo, num acaso, sem qualquer obrigação.

Um sentir ter asas e poder percorrer infinitos ou simplesmente pairar, como que se flutuasse.

Terei de ceder às listas e às agendas, seguir as regras e o relógio, não que já não o faça, ainda que conserve a falsa ilusão de resistência ao que já me domina e vou deixando me levar, ser arrastado para aqui e para lá, acelerado pelo relógio, agenda, compromissos, listas etc.

Eu preciso fazer a vida caber no papel, na lista, na agenda, no relógio, caso contrário estou fadado ao fracasso, ao insucesso. Eu preciso ter a meta estabelecida e não apenas cumprir as que me estabelecem, preciso retomar o controle com rigidez, para ver se sobra tempo de verdade.

Tempo para que eu possa perceber que respiro voluntariamente, que tenho autoridade sobre os passos que caminho e que não sou aquele rato correndo sobre os trilhos de uma roda circular sem sair da mesma posição.

Este texto é resultado de um trabalho voluntário, e é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Portal Carta do Mar e seus administradores..

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