Bernardo & Marcela – O Sonho que Continuou

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https://exame.com/mundo/casal-sera-julgado-por-beijo-em-publico-na-arabia-saudita/ 

Mais um dia ensolarado, embora com clima frio. Era outra festa dessas regadas puramente à bebida alcoólica, com músicas sem sentido, apenas para fazer barulho. Pessoas falando alto, homens e mulheres se insinuando e vibrando com essas insinuações. Diziam que era churrasco, mas carne, ou qualquer outro alimento, não se via, nem era essa a intenção dos presentes.

Breves comentários sobre festas passadas e futuras. Proezas de conquistas e micos da embriaguez de um ou outro. Comer para quê? Conversar que assunto mais? E o som aumentava, ensurdecia. Óculos escuros a disfarçar os olhos embriagados, talvez cansados, delirantes, alucinados, distantes, mas tão ali. E se bebia cada vez mais,  o volume da fala aumentava, as insinuações se ampliavam e Bernardo queria ver Marcela, pois era o que lhe interessava em tudo aquilo.

Marcela trajava botas de cano curto, cor de caramelo, a combinar com um cinto da mesma cor, todo trançado de material similar à palha, capim, não sei explicar, mas lembrava o material utilizado em chapéus de festa junina, contudo era perfeitamente envernizado chegando a uma tonalidade dourada. Ostentava aquela cara ranzinza de estresse permanente e gargalhava ora ou outra.

Seja perdoada a falta de memória deste que narra, mas não consigo definir se Marcela vestia uma saia curta ou um “shorts” jeans, também curto. Não importa, pois qualquer um que a olhasse se concentraria e faria questão de recordar somente da estonteante beleza do mais belo par de pernas, impossível de se imaginar. Isso justifica a amnésia a respeito da peça de roupa responsável por simplesmente adornar aquele deslumbre.

Pulseiras, relógio, fina corrente dourada, uma justa blusa de alças com um decote não significativo, entretanto sem deixar de valorizar os belos e firmes seios para os quais não encontro palavras capazes de definir a ousada beleza. Blusa preta? Branca? Não recordo, mas lhe caía tão apegada ao corpo que era como se quisesse ser a própria pele. Digo da cor da pele então. A barriga chapada, daquelas que pedem por um “piercing”, moda à época, para impor ainda mais sensualidade e graça a toda perfeição naquele corpo concentrada, podia levar ao delírio quem insistisse em fitá-la. Como era bela, deslumbrante.

Bernardo era um desses fãs anônimos, incapaz de se aproximar sem se achar idiota demais por gesto ou palavra que falasse. Olhava e olhava, mas fingia não se importar. Desejava que ela lhe direcionasse aqueles olhos castanhos escuros e quase saia de si quando o sol refletia e aumentava o brilho daquela pele morena, dourada, aparentemente com sabor. Deliciava-se pelos breves instantes em que era capaz de olhar disfarçadamente, sem ser surpreendido por ela ou por outras pessoas ao redor.

Talvez todo mundo ao redor já houvesse percebido, mas insistia na discrição. Não queria se entregar, sequer fosse suspeito da atração sentida, da admiração provocada. A jaqueta era azul. Não, era marrom. Bem, ela já havia retirado a jaqueta, o frio diminuíra. Esqueçam a jaqueta, a bota, o “shorts” ou a saia. Apenas imaginem-na e quando a mente puder construir uma mulher que seus olhos devorem e o desejo de trazê-la para perto de si for incontrolável, terão aproximada noção de Marcela, naquela tarde ensolarada e relativamente fria de agosto.

Os cabelos, lisos e finos, em pouca quantidade, não eram seu forte, mas quem se importaria, não existe entre nós perfeição absoluta e não é a perfeição dos detalhes que nos fascina, talvez seja a imperfeição, o detalhe que destoa, o excesso ou a falta de algo que torna a mistura, o conjunto, algo perfeitamente admirável.

Pobre Bernardo, tão pouco sedutor, tão fora daquele mundo de paqueras que permite chances a quem arrisca, a quem insiste, a quem não se importa com divagações românticas. Não! Definitivamente não era, nem fora, talvez nem seria apaixonado por Marcela, não fazia seu tipo de amor dos sonhos. Despertava desejo, não afeição, nem carinho. Será possível que isso exista? O que é mais difícil de surgir: carinho ou desejo? Do que é composto o amor que une dois seres, em qual proporção? Desejo depois carinho? Carinho e afeto e depois desejo? Não saberia até o beijo, até o passar do tempo. Ainda não sabe.

De volta ao ambiente da festa, fora de Bernardo e suas encenações mentais. Era a 2ª ou a 3ª vez em que se punha nesse tipo de ambiente, tão agradável para a maioria das pessoas com a idade dele ou mais novas, ou mais velhas. Não vou dizer da curiosidade e interesse de Bernardo em fazer parte, se sentir incluído, à vontade, feliz, naquele lugar diferente para ele. No entanto, mesmo com a boa vontade de todos ao recebê-lo e darem atenção, ao tentar fazer com que gostasse de tudo, se sentiu deslocado e perguntou a si mesmo: o que faço aqui? Negava o que lhe passava na mente, mas sabia que fora até aquela festa na esperança de poder ver Marcela outra vez.

Bernardo pretendia sair à francesa, sem causar muito alarde. Não era de seu feitio cumprimentar ou despedir-se politicamente de todos. Isso não se dava por arrogância, mas por profunda timidez, falta de confiança em si mesmo, algo que não sabia explicar. Despedir-se-ia ou cumprimentaria quem fosse necessário e retribuiria aos acenos que lhe fossem dirigidos, mas não pretendia incomodar os distraídos e fazer-se estrela ali. Na verdade, gostava de ser discreto, passar despercebido, o que lhe permitia a segurança de não ser alvo de críticas, por qual motivo fosse.

Bernardo não foi embora. Permaneceu sentado, por horas, segurando um copo com cerveja, vez ou outra molhando os lábios de uma forma tão breve que em todo o período não consumiu mais de dois copos da bebida. Marcela do lado oposto da festa ria e conversava em outro grupo. Não olhou Bernardo em momento algum, pelo menos ele não percebeu nenhum olhar.

Quando nada mais esperava eis que o imponderável, o imprevisível aconteceu. Marcela abandonou o grupo que estava e se dirigiu até Bernardo, sentou-se ao lado dele, à esquerda, fez com que ele abandonasse o copo sem palavra alguma ser dita.

Ambos estavam mudos. Bernardo paralisado, estático. O coração não acelerou, era como se tivesse parado de bater, tamanho o impacto da presença tão próxima de Marcela. Marcela não estava bêbada e isso o deixou ainda mais surpreendido, ela possuía total consciência do que fazia, embora parecesse cansada, querendo ser acolhida. E foi isso que fez. Encostou a cabeça no ombro esquerdo de Bernardo e dirigiu os ouvidos ao peito dele como se pretendesse ouvir os batimentos daquele coração que, após a parada, palpitava como o surdo da bateria ao marcar o tempo da música com graves e fortes pancadas.

Bernardo moveu-se, a envolveu em seus braços timidamente, mas à medida que se sentia seguro já não se preocupava com o mundo ao redor. Por um instante foi como se tudo houvesse parado e eles encenassem uma peça para os presentes, em seu momento áureo, no ápice.

Todos os olhares, perplexos com a inesperada cena, revelavam o estranho fato dos espectadores terem deixado de piscar e até mesmo de respirar à espera do próximo movimento.

Nem em seus melhores sonhos, na perspectiva mais otimista, Bernardo havia desenhado aquele cenário, aquele instante confuso, inexplicável, aquela atitude de Marcela, que nunca antes lhe tinha dado atenção. Mas o melhor estava por vir.

Marcela elevou os olhos na direção dos de Bernardo e na sequência os abaixou, os fechou, aproximando os brilhantes e irresistíveis lábios da face de Bernardo que, caso não houvesse baixado a cabeça de modo a irem ao encontro dos lábios de Marcela, os sentiria tocarem-lhe a face, entre o queixo e o lábio inferior dele.  Não seria o esperado beijo que a plateia silenciosamente clamava. Ao vê-la naquele instante era como se ela dissesse: Beije-me da maneira mais intensa que jamais pôde desejar.

Graças ao simétrico deslocamento realizado por Bernardo ele pôde capturar no ar o lábio inferior de Marcela com a deliciosa umidade e calor que trazia e o aprisionou em sua boca,  em meio aos lábios superior e inferior dele, sem poder narrar a doçura, os mil agradáveis sabores e sensações daquele encontro. Em retribuição, em continuidade, Marcela provou os lábios de Bernardo com o mesmo deleite com que ele havia provado os dela. Foi a sensação mais primorosa da vida de Bernardo, nunca imaginara que o beijo de Marcela poderia ser tão suave e tão intenso, tão provocante e tão acolhedor. Simplesmente inexplicável, inenarrável.

O público boquiaberto aplaudiu internamente a singularidade daquele momento que poderia ser considerado banal, desimportante, um ficar numa festa qualquer. Poderia durar para sempre, mas Marcela levantou-se e saia silenciosamente, tão inesperadamente como havia se colocado junto de Bernardo.

Enquanto saia, olhava deslumbrante e ainda mais bela do que nunca para Bernardo e disse, desafiadora e provocante, de uma forma quase inaudível, mas perfeitamente compreendida por Bernardo: Te espero, só nós dois, daqui a pouco. E Bernardo fez que sim, enquanto ela saia, mesmo sem a menor noção de como iria encontrá-la. Isso era o de menos, atravessaria o infinito do Universo, caso ela estivesse do outro lado, para poder provar novamente e com ainda mais intensidade aqueles lábios, aquela boca, aquele singular beijo. 

Nesse momento, quando a imagem de Marcela já não era mais visível e Bernardo tocava com as mãos os próprios lábios, ainda quentes, ainda molhados, ainda irradiando aquele prazer indescritível que tomava seu ser, e aquele desejo potencializado em maior descontrole, buscou levantar-se para alcançar Marcela.

Para sua tristeza acordou. Tudo não passara de um sonho. Todavia parecia tão real, ainda sentia a pele de Marcela junto à dele, a impressão e sensação táctil nas mãos que há pouco tocavam a coxa esquerda de Marcela, que devido à firmeza do toque a havia marcado com os contornos da mão e dedos sobre a pele.

O perfume dela estava no ar, a boca ainda úmida se deliciava da sensação do beijo – não podia ter sido apenas um sonho -. Estava tudo ali tão presente, tão real, tão próximo dos sentidos. Talvez as almas tivessem se encontrado durante o sono e o corpo pôde sentir esse encontro. Não é uma boa explicação. Bernardo apenas queria que tivesse sido verdade.

Bernardo tentou fechar os olhos, voltar a sonhar, reencontrá-la a fim de reviver e viver mais daquilo. Tantas sensações, tanta plenitude.

Era domingo, passava das duas da tarde e seu telefone tocava para que fosse a um desses almoços em família na casa de um parente qualquer. Bernardo leu no horóscopo do dia que era para anotar o sonho, pois isso poderia ser útil. Talvez fosse a pista, o caminho para encontrar Marcela na realidade além do sonho.

Bernardo não acredita nessa de leitura de sonhos e no plano astral, mas o acaso do sonho, o acaso da previsão do zodíaco e o inesquecível prazer do beijo que não conseguia esquecer o levaram a anotar a experiência, ora reescrita e apresentada a você que lê, por este narrador de fim de semana.

Uma manhã de 2013.

Este texto é resultado de um trabalho voluntário, e é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Portal Carta do Mar e seus administradores..

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