Anticatártico

“não há sinal de mudança, fica difícil ter esperança”, assim um jovem sábio falou.

E o que o outro, o extemporâneo disse, o póstumo que predisse, me faz repetir, ao refletir sobre, agora, que já não é, porque não se congela o instante:

É preciso fazer renascer, se já viveu, a criança,

Aquela que brinca

Que sorri e que dança

Aquela que ama sem culpa

Sem passado e sem futuro

Aquela que corre livre

Por quintais sem muro

Com medo do escuro

Sempre em busca de luz

Aquela para a qual o tempo não existe

Para quem o devir não tem mistérios.

X

Tornamo-nos (sempre fomos?) feras

Bestas insensíveis (se sensíveis, a que?)

Capazes das coisas mais terríveis (aos olhos de quem vê)

Culpados e vítimas de tanta dor.

Rasgamo-nos por dentro

E destruímos o fora (o outro e onde está)

Será passagem?

Não vivemos

Arrastamos nossos próprios corpos

E anestesiamos o caos de nossa mente

Fugimos constantemente da vida

Para evitar uma dor maior (é possível que doa mais?)

Criamos ilusões e morremos a elas abraçados

Deixamo-nos incendiar

E atribuímos ao outro a responsabilidade de nossa dor

Ecoam gritos inaudíveis

Imagens indizíveis

O terror de ser gente

E nos resta esperar nascer a flor (salvação de sublime beleza)

Aquela que não foi cultivada

Virá do nada em meio ao caos?

Não será farsa?

Estará fora?

Olhe e veja, sem demora.

Este texto é resultado de um trabalho voluntário, e é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Portal Carta do Mar e seus administradores..

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