
Parecia outra época, outro tempo. As pessoas andavam de trem e não era trem bala, metrô, era trem de passageiros, daqueles que vemos em filmes. Início do século XX, estimo, mil novecentos e alguma coisa. Esperavam o trem. Afinal, o que mais poderiam esperar? Abro parênteses para divagar: O que você espera da vida? O quanto espera, mesmo sem estar acomodado em uma poltrona, ou parado, ou movimentando-se numa esquina qualquer? Todos, talvez, esperem alguma coisa. A vida é uma longa espera, ainda quando se busca e se luta pelo esperado. Esperar é o que mais fazemos. Esperança é a coisa mais valiosa que temos.
Na verdade, Mônica esperava o trem e Eduardo esperava que ela não embarcasse. Eduardo a observava de longe, vidrado naqueles olhos cor de esmeralda cintilantes de Mônica, cujo negro da pupila dilatada compunha uma obra de arte perfeita e acabada, tanto no momento, quanto nas ocasiões em que ela o premiava com aquele sorriso amplo, cuja brancura e frescor dos dentes remetiam a marfim polido. Seus cabelos lisos e dourados como fios do precioso metal estavam incrivelmente belos naquele dia e desciam pelas suas costas até praticamente a altura da cintura. O corpo claro e perfeitamente desenhado de Mônica, cujas formas sutis atraiam qualquer olhar, estava revestido pelo jeans claro e justo de uma calça que valorizava suas formas, acompanhado por uma blusa branca sobreposta por um moletom azul com toca, a qual inclusive usava na cabeça, em razão do frio daquela manhã de agosto. Calçava tênis, branco, com detalhes rosa, um típico estilo século XXI, pós 2010.
Era estranho o fato da cena se passar no início do século XX, mas Eduardo e Mônica trajarem um vestuário dos dias atuais, mas assim era. Não sei se viajaram no tempo, talvez isso reste esclarecido mais adiante. Para onde iria aquele trem e qual relação haveria entre Eduardo e Mônica? Já disse o quanto Mônica era linda? Tudo nela era metrificado, assim como os antigos poemas que apenas exageravam na emoção, tal qual, ela exagerava na beleza.
Não farei segredo. Eduardo estava louco por Mônica, encantado com seu jeito de ser. Não era só a imagem. Ela era divertida, malucona, engraçada e ao mesmo tempo sensata. Mônica sempre sorria, sempre era gentil. Dificilmente se estressava. Sabe, é papo redundante, mas ela parecia um anjo, não os feios, aqueles bonitos de desenho animado. Um rosto tão delicado, olhos verdes encantadores. Pena ela nunca ter olhado Eduardo, tão rude e desajeitado. Se fosse um romance infantil seria a bela e a fera. Mônica Sol, Eduardo Terra, o sapo que quer ficar com a princesa, o príncipe que a iria acordar do sono a que fora induzida por uma madrasta má.
Era outro sonho, percebeu quando acordou. Já sonhara com ela antes, tantas vezes que já nem podia contar. Mas nesses sonhos, sempre alguém aparecia no meio do caminho antes dele poder se aproximar. Inseguro, no sonho mesmo, ficava calculando, intimidado por toda graça de Mônica. Eduardo era alguém de muito sentimento e pouca coragem. Só de pensar em se aproximar o coração disparava, ele suava frio, a mente raciocinava enlouquefurecidamente, e por mais que pensasse não se concentrava. Tantos planos sobre como e o que dizer – na maioria das vezes era apenas oi -, mas ela respondia, ao menos sabia da existência dele. Festa! Depois do oi, tudo acabava. Mas a vontade de haver mais permanecia.
Pensava: será sensato dizer que sonhei com você e discorrer sobre isso como se uma história real fosse? Bem, se não posso viver, se não posso te ter, que ao menos a noite permita-me sonhar e construir uma realidade inventada, cheia de tudo e repleta de nada. Nada assim que faça sentir mal, felicidade moderada, sem riscos, sem dramas, sem antes e sem depois, apenas agora, essa hora, esse momento do encontro e junção de dois mundos, duas vidas, dois seres, amor, amar, amando.
Uma manhã de 2010.








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” cheia de tudo e repleta de nada ” Profundo