Ouvir a Cidade: paisagens sonoras e sonoridades extintas

Alegoria dos cinco sentidos “Pietro Paolini”

A sociedade é um fenômeno também temporal. Estamos vivos pois estamos em movimento; estamos em movimento pois estamos no tempo. Pensar o mundo dessa maneira é entender que ele está em constante transformação. Heráclito (540 a.C) já apontava sobre a natureza e a mutabilidade das coisas. Ninguém pode banhar-se no mesmo rio duas vezes; temporalmente ninguém é o mesmo. A cada segundo nos mudamos e mudamos todo um mundo. Parte dessa transformação podemos captar por meio da nossa percepção. Nesse ponto é que mora o xis da questão. Como percebemos a mudança? Qual sentido nos trás a ideia de transformação? Dentro da nossa consciência ocidental existe uma predisposição do sentido visual sobre os demais sentidos. Tal aspecto já foi muito bem discutido por inúmeros autores, dentre eles destacamos o filandês Juhani Pallasma. É quase que automática a vinculação da memória ao sentido visual, porém, meio à esse mar imagético, chamamos a atenção para o fato de uma outra ‘paisagem’ que floresce e diz muito do ambiente que estamos inseridos – a paisagem sonora. M. Schafer situa a paisagem sonora como todo o entorno sonoro ambiental que o homem está inserido. Notar essa paisagem é importante para localizarmos nossa sociedade em diversos âmbitos: de desenvolvimento técnico, de saúde, social, cultural e antopológico. Faça um exercício, busque na memória como a nossa cidade e região mudou durante os anos. Tente, igualmente, lembrar-se das sonoridades da cidade. O que mudou? Como isso interferiu na vida das pessoas? Como que a paisagem sonora influencia nos costumes e hábitos/cultura da comunidade? Na comunidade andiraense um exemplo bastante claro é o já extinto apito da antiga Setti Alimentos. Hoje ela caracteriza-se como uma sonoridade extinta, porém por muito tempo regulou as atividades dos moradores da cidade. Ele ditava o ritmo das horas para a cidade ainda em desenvolvimento. Sabíamos a hora do almoço, do café da tarde e do fim do expediente. Foi um marco sonoro que deveríamos estudar mais a fundo. Ative seus sentidos para entender a sociedade de maneira mais profunda. Busque nos meandros e nos confins da memória as sonoridades que foram extintas e que marcaram época em sua comunidade. Conta pra gente. Poderiamos montar um museu do som?

 

Ercole Martelli

Alegoria dos Cinco Sentidos – Pietro Paolini, (1603-1681)

Este texto é resultado de um trabalho voluntário, e é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Portal Carta do Mar e seus administradores..

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