
Disseram-me que estou no caminho errado, que não adianta buscar entender o porquê das coisas, quando já é suficientemente magnífico conseguir explicar como elas funcionam, tarefa esta que desafia todas as ciências.
Ao tentarmos entender o porquê das coisas invadimos um campo metafísico, espaço da razão sem razão, onde nossos esforços são inúteis e nos deparamos com nossos limites – rompê-los parece impossível – não há mais o que faz sentido, desconfia-se de tudo, ao menos, pensamos conhecer toda a verdade, verdade da qual se suspeita e ao final nos resta simplesmente a fé, o acreditar sem entender.
Neste último ponto não há ciência, não há uma coisa que consequentemente faça presumir a existência de outra, a Física, a Matemática, a Química, a Biologia, a Filosofia, enfim, todas as ciências, apenas sugerem respostas, respostas que se aceitam provisoriamente, até o momento em que atingidas pela mais leve brisa de um novo conhecimento, uma descoberta, são levadas, esfacelam-se sendo esquecidas.
A humanidade evolui, às vezes diz que revoluciona, mas, na tentativa de solucionar os problemas encontrados em sua caminhada sem destino sobre o planeta, muitas vezes regride ao ponto de partida. Problemas aparentemente superados ressurgem, juntamente com novos desafios, teoricamente mais difíceis.
Confusas, talvez ininteligíveis e difíceis de compreender essas palavras de um observador, uma dessas pessoas que assiste ao espetáculo da vida, alguém sem fama, pouco conhecido, muitas vezes ignorado por complicar o que dizem estar tão evidente.
Já disse Teilhard de Chardim, faz tempo, ao observar o fenômeno humano, as seguintes palavras: “Em nós e à nossa volta, desenrola-se rapidamente um fenômeno psicológico de importância incalculável, que poderíamos chamar ‘o despertar do sentido humano’. A humanidade começa a sentir-se junta e unida para uma grande tarefa, cujo progresso os cativa com uma emoção quase religiosa, saber mais, poder mais. Estas palavras sem deixarem de ter para nós um sentido utilitário, aureolam-se aos olhos de quase todos com um sentido sagrado. Atualmente os homens dão a vida para que o mundo progrida.”
Penso que o progresso da humanidade não é o progresso econômico e tecnológico, por mais contestável que seja esta opinião, não seriam somente estas as formas de progresso capazes de superar os problemas que tanto nos afligem.
O nosso pior defeito é o egoísmo, considerado por muitos uma virtude. Objetivos comuns são saber e poder mais, ser feliz. Não saberemos mais e poderemos muito se estivermos unidos? O que impede essa união? O egoísmo e a desconfiança comum entre os interesses de uma e outra pessoa? Parece que sim, a dificuldade é esta, apenas parece. Quem correrá o risco? Quem estará disposto a pagar o preço do que promete trazer o progresso? Tanto já se destruiu, milhões de pessoas morreram, sacrificando-se em nome do progresso da humanidade, tantos sofreram e sofrem nessa missão humana de buscar o bem, o bem estar próprio e em alguns casos, onde mais se sofre, porém onde a recompensa é mais ampla, o bem estar coletivo.
A paz, a alegria, o amor, a felicidade, a compreensão, a esperança de sempre melhorar; o contentamento, o trabalho como instrumento de realização, a união, a fraternidade solidária em todos os momentos de nossa vida; o respeito, a busca do conhecimento, são alguns elementos e consequências do progresso que se quer. Certa vez escrevi que a ordem da esperança de nossos corações deve se tornar o combustível do nosso progresso, isto se os nossos corações estiverem repletos da esperança ordenada pelos elementos e consequências que acabei de apresentar, assim como outros fatores que aos apresentados se assemelham, que talvez eu não conheça, ou, neste momento, não me vêm à mente.
Hoje, quando me ponho a digitar estas palavras, lembro-me do progresso humano, de como há poucos anos era a caneta que traduzia minhas palavras para o papel, de como a datilografar em suas máquinas de escrever tantos homens e mulheres contribuíram para o progresso, de como antes, pouco mais de um século, digo sem certeza, era a pena que fazia milagres ao deslizar e escrever palavras, nas mãos de pessoas admiráveis.
Após uma semana de saídas diárias a caminhar pela noite enluarada e cheia de estrelas da belíssima cidade de Andirá, toda enfeitada para as festas de fim de ano, tão amada, tão querida, tão carente do progresso verdadeiro, o despertar do sentido humano.*
Sinto que eu mesmo ainda não despertei, ainda não venci completamente o mal do egoísmo e ainda desconfio das outras pessoas, que não me arrisco em nome do progresso.
Não consegui encontrar os porquês e nem explicar como funcionam as coisas, outra vez me pergunto se sou infinito limitado sem condições de transcender ou finito ilimitado transcendendo a finitude, penso que todas as pessoas são assim, oposição contínua a caminhar, às vezes circularmente, não saindo do mesmo lugar – rimou, difícil fugir à rima, mesmo não sendo ela bem-vinda na prosa, é que as vezes tento fazer do cravo uma rosa-.
Passou o natal, caminhamos pelo ano novo, que já não é novo, mas atual, de novo sempre há o passado. Quero que despertemos o sentido humano, quero o progresso, a revolução consciente, a união, a vitória sobre o nosso egoísmo, saber e poder mais, confiar nas pessoas e fazer com que elas confiem em mim, não as decepcionando e nem sendo decepcionado por elas.
Estou disposto a correr riscos, a sacrificar-me pelo progresso, a vencer o egoísmo, a despertar rompendo as grades da minha própria ignorância, não me importa como funciona, mas desconfio como se deve funcionar, parece que é tão simples amar e querer bem as outras pessoas, parece que se estivéssemos juntos seria tudo tão mais fácil.
Pelo progresso, fundado nessa emoção que cativa, movido pela esperança inexplicável e irracional, que aparenta ter razão, quero ser feliz, quero fazer feliz o máximo de pessoas que me seja possível, vencer o que parece impossível de ser vencido, tornar um dia suficiente para promover grandes obras, não serei mais um, serei um a mais, somarei ao invés de diminuir. E você?
Vamos juntos! Não posso sozinho, mas morro tentando! De que vale a vida se não a vivermos em função do que acreditamos, se sempre deixarmos para amanhã? O amanhã não nos pertence, talvez não estaremos aqui! Que a voz vibrante de nossos desejos ecoe pelo mundo e o torne melhor, que as nossas boas ações sejam exemplos seguidos.
Atrasado desejo um feliz natal que passou, um feliz ano novo, não tão novo assim, feliz despertar, feliz batalha, feliz vitória, feliz vida, feliz progresso, feliz saber, feliz poder, feliz amar, feliz compreender, feliz união, feliz paz, feliz alegria, felizes dias. Estejam dispostos, estejam preparados, façam e não esperem que seja feito, retribuam o que não receberam, mas queriam ter recebido, paguem o preço, corram o risco, vai dar certo, ao menos aprenderemos após ter percorrido um outro caminho, tão entusiasmante, tão digno, tão belo, tão promissor. Ouça o despertador, já passa da hora de acordar.
* texto do ano de 2009, aproximadamente, ainda válido, penso, época em que ainda não recaía sobre nós a pandemia.







