A saudade não escolhe status…

Ela estacionou seu Pininfarina na garagem de casa, olhou para o relógio do carro que marcava que o dia acabara de amanhecer. Eram 06h21.
Tirou o salto 15, Prada, antes mesmo de descer.
Desceu descalça, sentindo a grama úmida e gelada. Era início de maio.
Abriu a porta da sua casa, e foi direto para seu quarto, no terceiro andar.
Jogou a bolsa Chanel em um canto qualquer, colocou o celular – que trouxe da última viagem a Barcelona – para carregar. Não queria correr o risco de ficar sem ler as mensagens recebidas durante a noite.
Despiu-se de seu Valentino, e o depositou na poltrona ao lado da sua cama.
Retirou, vagarosamente, a lingerie francesa, presente da sua melhor amiga na última viagem que fizeram a Paris. Dessa vez, para conhecer os jardins de Monet, que ainda não conhecia. Amava o impressionismo. Mas, surpreendentemente, nos últimas idas à capital francesa, se preocupara mais com a noite parisiense do que com a arte que tanto amava desde pequena.
Retirou do seu frigobar a última garrafa de Veuve Clicquot, serviu-se de uma taça e foi em direção a banheira.
Nua, imergiu na água e em seus pensamentos, enquanto retirava o excesso da maquiagem – nesta hoje, já borrada – ligou o som suave e se permitiu fechar um pouco os olhos, enquanto bebericava seu champanhe e a água morna e perfumada hidratava e banhava sua pele.
Nem sabe quanto tempo ficou por ali, mas, se permitiu chorar. Desses choros compulsivos e necessários para limpar os poros, depois do demaquilante. Chorou, obsessivamente. E pensou na vida vazia que vinha levando. Pensou em cada minuto daquela noite, desenhou cronologicamente desde que a amiga ligara e a convidara para uma festa fechada no bar mais badalado da cidade. No momento, pensou em não ir. Talvez ainda não fosse a hora. Mas, foi tanta a insistência, que sua vontade de dizer “não” morreu na garganta.
Foi uma noite intensa, agradável até. Afinal, estava entre amigos queridos. Mas, algo lhe faltava. Fazia um mês que algo lhe faltava o tempo todo. Era uma vida vazia. Sem ele ao seu lado, não existia consistência. A alegria por si só, o amor-próprio, por si só, não seguravam a bronca de se sentir deslocada, como se não pertencesse aquele lugar. É assim que se sentia, desde que ele se foi. Amava-se. Amava seus amigos. Suas conversas filosóficas. Suas teorias quânticas. No entanto, o seu ”eu emocional” não tinha controle algum sobre isso. Simplesmente. Era dor. Só dor.
Enquanto levantava da banheira e tirava o excesso de água do corpo. Lembrou-se do toque suave dele. E as lembranças emergiram com força total. Em quanto esforço aquele homem fez para estar com ela. O quanto cuidou dela. Como poderia ter deixado-lo ir, simplesmente?
Não conseguiu parar de chorar. Tinha tanta coisa, mas não mais a presença dele.
A única coisa ali dele que ficou foi o ursinho escrito “I Love You” que ele ganhou para ela, depois de investir dois reais, nessas maquininhas de shopping Center. E, pensou, era a coisa mais valiosa ali em seu quarto.
Esgueirou-se por entre os lençóis de linho egípcio e se permitiu pensar nele, exaustivamente.
Pensou em ligar. Pensou em escrever. Pensou em tanta coisa. Pensou tanto que paralisou. Não tinha sentido procurá-lo mais. Certeza que ele estava tocando a vida. E já nem se lembrava mais dela.
Afinal, se ele se foi por uma briga tão boba, não era amor. Era?
Ela sabia que era.
Sua intuição dizia.
Se não fosse amor, por que pensava nele todos os dias.
Por que tudo o lembrava? Por que não consegue se envolver com ninguém. Nem permitir – sequer – uma aproximação? Por que sente que ainda não fechou o ciclo e que ainda tem muito o que viverem juntos.
Afinal, não é todo dia que aparece alguém que queira verdadeiramente você. Do jeitinho que é.
Besteira essa história de diferença social.
Besteira absurda. Que levou ele embora.
Permaneceu chorando até adormecer. Com o ursinho nos braços. Já eram 9h, o horário que ele acordou para pedalar naquele domingo de sol. E a primeira coisa que fez foi pensar nela. Que saudades de caminharem de mãos dadas no parque tomando sorvete.
O amor era tão simples. Por que as pessoas complicavam tudo?

Este texto é resultado de um trabalho voluntário, e é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Portal Carta do Mar e seus administradores..

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Crônicas, Literatura

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