“Nunca sonho durante a noite, mas no meu atelier estou em pleno sonho. É quando trabalho, quando estou acordado, que sonho.” (Livro: Esta é a cor dos meus sonhos – Entrevista de Joan Miró à Georges Raillard)

Nos últimos meses resgatei um hábito antigo, melhor dizendo, um exercício que realizava nos tempos de faculdade. Tal exercício consistia em reservar pelo menos vinte minutos do meu dia para a apreciação de obras das artes plásticas. Comecei a reviver as obras do artista catalão, Joan Miró.
Frequentemente, após a experiência de apreciação, compartilho com meus amigos das redes sociais algumas das obras que mais me chamaram a atenção, e é ai que muitas pessoas questionam-me sobre as imagens, seu ‘significado’ e o por que gosto tanto do artista em questão. Diante de tais questionamentos é que resolvi escrever esse texto para apresentar algumas das ideias que giram ao redor da concepção de arte, mais especificamente em Miró, e do modo que a recebemos. Desenvolveremos questões de aspecto mais geral até concepções e experiências pessoais que as obras me proporcionam.
Miró: aspectos iniciais
Se alguém me perguntar o porquê eu gosto da arte de Joan Miró (1893-1983) eu diria, sem qualquer sombra de dúvida, que é pelo fato dela ser uma arte que ultrapassa limites e rótulos. Certa vez, em entrevista ao site publico.pt, o professor António Olaio (Universidade de Coimbra) comentou sobre o fato de que os artistas interessantes “são eles próprios um movimento”; assim podemos entender o posicionamento artístico do pintor catalão.
Talvez a palavra que melhor ilustre a vida e obra de Miró seja ‘liberdade’. O artista atravessou o final do século XIX, adentrou o século XX, presenciou as duas grandes guerras mundiais, teve contato com movimentos tais como o realismo, cubismo, dadaísmo, surrealismo, fauvismo e tanto outros ismos, possuía em seu círculo de amigos pessoas como Max Ernst, Paul Klee, Picasso e mesmo assim sua arte nunca se prendeu a rótulos e definições estancadas temporalmente, mas antes a uma busca pessoal do artista pela expressão e por diferentes maneiras de fazer perceber a realidade.
Nesse momento talvez a seguinte questão esteja no ar: “Tá bom, mas o que quer o Miró fazer perceber?”
Do ponto de vista da apreciação, acredito que explicar uma obra de arte torna-se tarefa entediante. Tal consideração dá-se pelo fato de que acreditamos que a experiência estética é, em primeiro lugar, fruto da relação entre experiências/vivências pessoais do observador com a proposta dada pelo autor da obra. Sendo assim, acreditamos também que a obra de arte tenha o poder de plurificar, ou seja, provocar no indivíduo os mais diversos afetos, sentidos e ideias, ao invés de exclusivamente comunicar. Talvez seja esse o ‘’barato’’ da obra de arte.
Após o exposto não iremos tentar explicar Miró, mas antes daremos algumas pistas para que a apreciação e o contato com as obras do pintor catalão sejam mais ricas e dinâmicas.
Arte, expressão e reprodução: alguns apontamentos.
As obras de Miró são ricas em formas, linhas e cores. Podemos localizar e apontar que elas nos apresentam o diálogo entre 3 tipos de elementos fundamentais, sendo eles: os elementos iconográficos (espécie de sistema de escrita como a utilizada pelos egípcios e pelos homens pré-históricos ), grafismos (modo particular de alguém escrever) e a utilização majestosa de uma grande paleta de cores, remetendo-nos quase que instantaneamente a uma atmosfera do desenho infantil.
Paul Klee, artista plástico, ensaísta e amigo de Miró, certa vez escreveu-nos dizendo sobre o papel da arte. Segundo ele “a arte não reproduz o visível”, mas sim “torna visível”. Tal ideia se faz de extrema importância para entendermos grande parte do pensamento e da produção artística de vanguarda do século XX.
Muitas vezes ao falarmos sobre arte logo nos vem à cabeça a celebre cena de um museu repleto de quadros com figuras mirabolantes das quais não conseguimos entender muito bem. Ai que mora o xis da questão.
De maneira geral, com o advento da técnica fotográfica no final do século XIX, os artistas plásticos passaram gradativamente a perder o interesse em retratar formas e imagens com características realísticas. O pensamento da época apontava para a ideia de que se por ora conseguimos ter a perfeição de uma imagem por meio desse novo recurso tecnológico, qual o motivo de realizarmos o mesmo trabalho de maneira manual? Fazendo referência às ideias de Paul Klee, nesse momento os artistas começaram a libertar-se do objeto (descrição) e começaram uma busca pela abolição da imitação para dar lugar ao universo invisível pertencente e único de cada artista.
Movimentos como o impressionismo e o expressionismo são exemplos claros de como os artistas aplicaram suas percepções sobre a obra. O impressionismo, por exemplo, consistia em retratar a incidência da luz sobre o objeto, ou seja, era a expressão de uma ‘impressão física’; já o expressionismo, grosso modo, tinha como objetivo a retratação de uma percepção. Era algo como a expressão de uma impressão, ou melhor, a ‘expressão de uma percepção psicológica’, como pontua Paul Klee. Desse modo começamos a possuir no âmbito da arte uma alta produção de imagens abstratas, de formas sem contorno bem definidos etc.
Foi nesse caminho que trilhou o artista Miró. Suas obras são repletas de referências únicas e intransferíveis sobre ações do cotidiano, figuras, retratos e situações. Nesse sentido podemos citar uma de suas celebres obras “O carnaval do Arlequim” (1924-25). A obra, repleta de motivos que sugerem muito movimento, apresenta uma série de elementos distintos e caóticos dialogando dentro de um quarto. Hoje sabemos que a concepção e a construção dessa obra deram-se num momento em que Miró passava por alucinações devido à fome.

“O carnaval do Arlequim” (1924-25) ; fonte: https://catalisecritica.files.wordpress.com/2011/01/carnaval-de-arlequim-mirc3b3.gif
Outras obras do artista apresentam títulos que geram atrito e tensão com aquilo que visualizamos. Como exemplo podemos citar as obras “Mulher e Pássaros no nascer do sol” (1946), “A poetisa” (1940) e “Pássaro” (1974), onde os títulos desestabilizam o expectador no sentido de não possuírem uma conexão clara com as figuras apresentadas. É algo como a desconstrução e a reconstrução da realidade pelo olhar do pintor catalão.

“Mulher e Pássaros no nascer do sol” (1946). Disponibilizado pela fundação Joan Miró – http://www.fmirobcn.org/
Miró nos aponta para a perspectiva de uma realidade quase inocente, um mundo de linhas e formas que despertam nossos olhares e que nos fazem repensar desde ações do cotidiano até a própria relação com a vida e com as coisas. Para quem for apreciar Miró pela primeira vez já deixo a dica, devemos nos deixar levar por um mundo como o experimentado por uma criança; um simples traço pode revelar-nos um mundo oculto a ser explorado. Vale o exercício da imaginação e da transgressão da razão.







